
Veep e a sua lição sobre a importância de estudos visuais na Comunicação Política
Para quem alguma vez já assistiu a premiada série de comédia Veep e acompanhou o desorganizado gabinete da vice-presidente (ficcional) dos Estados Unidos, Selina Meyer, deve ter reparado em um elemento recorrente nos episódios: a preocupação dela com a sua imagem. Um bom exemplo é o oitavo episódio da segunda temporada, no qual a vice-presidente concede uma entrevista, para um canal televisivo, mostrando um dia fora da Casa Branca. O episódio começa com Selina demonstrando preocupação sobre se o vestido que está usando passa o recado que ela quer, o de parecer casual. Ainda, há a inquietação de como a roupa fica dobrada quando ela senta, precisando sentar de forma específica para que determinadas dobras sumam. Durante o episódio, ela também submete a filha vegetariana a comer um frango que fez, tudo pela sua imagem de alguém da vida pública que consegue conciliar a vida privada com o cargo pesado que tem. Em síntese, a preocupação de Selina Meyer, neste episódio, é com sua imagem meramente visual, muito pelo veículo de transmissão da entrevista ser a televisão.
Neste sentido, podemos introduzir o que Maria Helena Weber (2009) já nos disse sobre a imagem – ou a imagem pública –, que ela não é formada apenas por elementos visuais, mas também pelos discursos, propagandas, notícias e mídias. Além disso, podemos recorrer ao sociólogo e antropólogo Georges Balandier (1982) e atentar que o universo político busca utilizar as técnicas de um determinado espaço de tempo para garantir efeitos. Ou seja, se vivemos em uma época em que a televisão e as mídias sociais online são dominantes, as técnicas do universo político vão condizer com estes veículos de comunicação. Além disso, se a televisão e as principais redes sociais (como Facebook, Instagram, YouTube e TikTok) são visuais, os atores políticos também se preocuparão com os elementos visuais para transmitir suas mensagens. Deste modo, as preocupações da personagem ficcional são totalmente válidas e nos mostram que qualquer detalhe visual pode se tornar importante para transmitir um sentimento, recado ou ideia. Estas minúcias já vêm ganhando espaço em pesquisas internacionais sobre estudos visuais (e. g. Farkas & Bene, 2021; Strand & Schill, 2019), que se mostram atentas para detalhes como roupa, expressão facial, tipo de imagem, presença de pessoas (família, cidadãos, membros oficiais), centralidade do político nas fotos/vídeos, etc. O que não é tão visto em pesquisas nacionais, que ainda possuem um foco muito voltado para os temas debatidos pelos atores políticos ou para um personalismo, sem a intenção de observar estes “pequenos” detalhes.
Para finalizar, podemos trazer um dos exemplos mais famosos sobre a importância da imagem visual, que é o primeiro debate presidencial televisionado dos Estados Unidos (1960). De forma resumida, os estadunidenses que viram o debate pela televisão julgaram Kennedy como o vencedor, enquanto os que ouviram pela rádio apontaram Nixon como favorito. Esta diferença se deu muito pela aparência de Nixon, que prejudicou sua capacidade de persuasão sobre quem o assistia pela tv. Portanto, se por um lado a importância dos elementos visuais na política batem na nossa porta desde, pelo menos, a década de 1960, a ponto de uma série de comédia também ser capaz de estampar esta importância, por outro parece, ainda, haver uma escassez de estudos visuais na comunicação política brasileira. Deste modo, a pesquisa nacional possui um tema pouco explorado para colocar em sua agenda de pesquisa.
Referências
BALANDIER, Georges. O poder em cena. Universidade de Brasília, 1982.
FARKAS, Xénia; BENE, Márton. Images, politicians, and social media: Patterns and effects of politicians’ image-based political communication strategies on social media. The international journal of press/politics, v. 26, n. 1, p. 119-142, 2021.
STRAND, Ryan T.; SCHILL, Dan. The visual presidency of Donald Trump’s first hundred days: Political image-making and digital media. In: Visual political communication. Palgrave Macmillan, Cham, 2019. p. 167-186.
WEBER, Maria Helena. O estatuto da imagem pública na disputa política. Revista ECO-pós, v. 12, n. 3, 2009.